O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul surge como um dos movimentos mais relevantes para redefinir o mapa das exportações brasileiras na próxima década. Ao ampliar o acesso a mercados e estimular o fluxo bilateral de mercadorias, o tratado abre espaço para o crescimento das vendas externas de commodities brasileiras e para a entrada de produtos industrializados europeus no país. No entanto, o avanço comercial pode expor, de forma ainda mais evidente, os gargalos crônicos da infraestrutura nacional.
Na avaliação da Macroinfra, o acordo funciona como um verdadeiro teste de estresse para o sistema logístico brasileiro. Sem investimentos consistentes em portos, rodovias e ferrovias, o risco é que a expansão do comércio se traduza em congestionamentos, atrasos e aumento de custos. “O risco é ver o ganho competitivo conquistado nas negociações se perder nos atrasos e custos adicionais”, afirma o empresário Olivier Girard.
A perspectiva de um aumento expressivo no fluxo de mercadorias recoloca no centro do debate a capacidade do país de sustentar esse crescimento. A questão, segundo Girard, não é apenas produzir mais, mas conseguir escoar com eficiência. “A infraestrutura do país está preparada para essa nova realidade ou veremos os ganhos do acordo se perderem nos gargalos dos portos e das estradas e ferrovias?”, questiona.
Um estudo realizado pela Macroinfra traça um diagnóstico detalhado dos desafios da logística brasileira no agronegócio, especialmente no transporte de produtos em granéis. O levantamento aponta que o Brasil deve passar a exportar cerca de 58,8 milhões de toneladas adicionais de granéis agrícolas nos próximos dez anos, o que traz implicações diretas sobre a necessidade de investimentos em transporte e logística. “O país está cada vez mais exportando, em um cenário de crescimento incessante, seja por ferrovias, hidrovias, rodovias e portos. Mas, ao mesmo tempo, a velocidade de investimento nos projetos existentes de novos corredores logísticos não está acompanhando a dinâmica do crescimento de produção e exportação do setor”, ressalta Girard.
Segundo o estudo, a pressão sobre a infraestrutura já é uma realidade. A demanda por exportação de granéis agrícolas deve atingir a capacidade atual dos principais portos exportadores até 2028.
Em alguns casos, esse limite já foi superado, ultrapassando o patamar de segurança operacional de 85%. “Já existe uma série de projetos em desenvolvimento, tanto portuários quanto ferroviários, porém muitos ainda estão na fase embrionária e precisam ser acelerados para terem mais chances de sair do papel e se tornarem realidade até 2033”, explica o empresário.
Os impactos do acordo entre União Europeia e Mercosul tendem a se manifestar primeiro nos pontos mais sensíveis do sistema. Portos do Sudeste e terminais estratégicos do Arco Norte devem sentir a pressão imediata do aumento no volume de contêineres e granéis. As rodovias e ferrovias que alimentam esses corredores, muitas vezes já operando no limite, correm o risco de enfrentar congestionamentos crônicos, com reflexos diretos sobre custos e prazos de entrega.
Girard enfatiza que sem uma agenda consistente de investimentos e planejamento de longo prazo, o chamado “Custo Brasil” logístico pode consumir parte relevante da vantagem competitiva obtida nas mesas de negociação. “O acordo abre portas, mas a capacidade de atravessá-las dependerá, cada vez mais, do que acontece fora da porteira e ao longo dos corredores logísticos do país”, pontua.
(O Presente Rural)
